A Espanha nunca contratou um treinador estrangeiro. Enquanto isso, 26 das 48 seleções da Copa do Mundo de 2026 o farão. A tradição de campeões com treinadores locais, em xeque.
A Espanha é a excepção numa era de globalização do futebol: nunca teve um treinador estrangeiro a liderar a sua selecção nacional. Entretanto, mais de metade das seleções que irão competir no Campeonato do Mundo de 2026 – 26 dos 48 participantes – optaram por treinadores estrangeiros. A tradição de os campeões mundiais serem treinados por um técnico local permanece intacta, mas o torneio de 2026 pode quebrá-la.
A história recente do futebol internacional está repleta de casos de treinadores que cruzaram fronteiras para ter sucesso. Carlos Queiroz, por exemplo, dirigiu cinco Mundiais consecutivos com seleções diferentes: Emirados Árabes Unidos (1990), Kuwait (1998), África do Sul (2002), Irã (2014) e Egito (2018). Bora Milutinovic, por sua vez, acumulou cinco Copas do Mundo com cinco seleções diferentes: México (1986), Costa Rica (1990), Estados Unidos (1994), Nigéria (1998) e China (2002).
A maldição do treinador importado na Copa do Mundo de 2026
Carlos Alberto Parreira, o mais velho, participou de seis edições como técnico, comandando o Brasil em 1994 e 2006, e outras seleções como Kuwait e África do Sul. O paradoxo é que, apesar da crescente internacionalização das bancadas, nenhuma equipa campeã mundial foi liderada por um treinador estrangeiro. Do Uruguai em 1930 à Argentina em 2022, todos os títulos caíram nas mãos de treinadores locais.
A Espanha, com Luis de la Fuente no comando, mantém viva esta tradição, mas a Copa do Mundo de 2026 pode ser o palco onde a maldição será quebrada. O debate não é menor. A globalização democratizou o acesso aos melhores perfis técnicos, mas também levantou dúvidas sobre se a identidade de uma equipa se dilui quando a gestão não partilha a sua cultura futebolística.
Queiroz, Milutinovic e Parreira mostraram que o sucesso é possível além-fronteiras, mas a história da Copa do Mundo continua a lembrar que a tradição local tem peso. O que acontecerá em 2026? Com 26 times com treinadores estrangeiros, a probabilidade de um deles levantar a taça aumenta.
A questão não é mais se isso acontecerá, mas quando. O contexto atual acrescenta outra camada: a FIFA flexibilizou as regras de nacionalidade para selecionadores desde 2021, facilitando a posse de técnicos com dupla nacionalidade ou raízes em outros países. Isto acelerou a tendência, mas também levantou críticas sobre se a experiência está a ser priorizada em detrimento da identidade cultural.
O fator psicológico também desempenha um papel. Num torneio onde a pressão é máxima, algumas equipes poderiam buscar externamente uma solução para bloqueios históricos. Portugal, com Roberto Martínez, procura repetir o sucesso de 2016 com um treinador que já demonstrou a sua capacidade na Eurocopa.
Marrocos, com Walid Regragui, aposta num perfil que entende o futebol africano por dentro, mas com uma perspectiva europeia. Estes casos mostram que a escolha nem sempre é binária: identidade versus experiência, mas sim uma combinação estratégica. A RFEF, por sua vez, mantém a sua linha.
Luis de la Fuente, treinador desde 2022, construiu uma equipa baseada nas camadas jovens e na coesão tática, algo que os treinadores locais tendem a dominar melhor. Mas a Copa do Mundo de 2026 chega num momento de transição geracional, e a pressão por resultados poderá forçar uma mudança de paradigma. Estaremos perante o crepúsculo da era dos técnicos locais ou apenas um pontinho na história?
A resposta pode estar no campo, mas também na forma como as equipes equilibram tradição e modernidade. A Copa do Mundo de 2026 não será apenas um festival de futebol, mas um laboratório de gestão esportiva em escala global. O seleccionador português Roberto Martínez resumiu o dilema numa entrevista recente: "Uma selecção nacional não é uma empresa.
Tem uma identidade que transcende o treinador. Mas no futebol moderno, a experiência internacional pode ser a diferença entre o sucesso e o fracasso". A crescente dependência de técnicos estrangeiros também levanta questões sobre a sustentabilidade desta tendência.
Se as seleções nacionais continuarem a escolher treinadores estrangeiros, corre-se o risco de perder a essência do futebol local? A ligação emocional entre o treinador e os adeptos é crucial e um treinador que não partilha a cultura do país pode ter dificuldade em gerar esse vínculo. Assim, a Copa do Mundo de 2026 se torna um ponto de inflexão: um sucesso de um técnico estrangeiro poderia abrir as portas para uma nova era, enquanto um fracasso reafirmaria a importância da identidade local.
Nesse sentido, a Copa do Mundo de 2026 não medirá apenas a qualidade técnica dos selecionadores, mas também a sua capacidade de adaptação e conexão com as expectativas dos torcedores. As equipas que conseguirem equilibrar a experiência internacional com um profundo conhecimento da cultura futebolística do seu país poderão ter uma vantagem decisiva. No final, o torneio será um reflexo de como o futebol, apesar da sua globalização, continua a ser um fenómeno profundamente enraizado na identidade nacional. Ler em ABC Deportes
Por que isso importa
O artigo expõe uma tensão fundamental no futebol moderno: a globalização dos bancos de reservas versus a tradição dos campeões locais. Embora a Copa do Mundo de 2026 seja a mais global da história em termos técnicos, a história sugere que o título geralmente fica em casa. Quebrar essa dinâmica não só redefiniria o futebol, mas também desafiaria a ideia de que a identidade local é um factor determinante para o sucesso. Um debate que vai além do desporto e toca a essência da construção das seleções nacionais. A eleição de treinadores estrangeiros em 2026 também reflete uma evolução na gestão de talentos: a FIFA flexibilizou as regras de nacionalidade desde 2021, permitindo que perfis com duplo passaporte ou raízes em outros países assumam o cargo. Isto acelerou a tendência, mas também abriu um debate sobre se o conhecimento técnico é priorizado em detrimento da identidade cultural. Num torneio onde a pressão é máxima, algumas equipas procuram externamente uma solução para bloqueios históricos, como Portugal com Martínez ou Marrocos com Regragui. A RFEF, por outro lado, mantém o seu compromisso com o local, mas a Copa do Mundo de 2026 chega num momento de transição geracional que pode forçar uma mudança de paradigma.
Perguntas frequentes
Por que a Espanha nunca teve um treinador estrangeiro?
A RFEF sempre priorizou a figura de treinadores com raízes no futebol espanhol, de José Villalonga a Luis de la Fuente. A tradição de formar treinadores locais e a confiança na sua capacidade de gerir a identidade de La Roja mantiveram esta linha.
Quantas seleções da Copa do Mundo de 2026 terão treinadores estrangeiros?
Das 48 seleções classificadas, 26 optaram por selecionadores de fora de suas fronteiras. É a primeira vez que mais de metade dos participantes rompem com a tradição dos técnicos locais.
Quais treinadores estrangeiros tiveram mais sucesso em Copas do Mundo?
Carlos Alberto Parreira é o recordista com seis participações (1982, 1986, 1990, 1994, 1998, 2006). Bora Milutinovic conseguiu classificar cinco seleções diferentes para a fase final, e Carlos Queiroz liderou cinco seleções em Copas do Mundo consecutivas.
Algum técnico estrangeiro ganhou uma Copa do Mundo?
Não. Todos os campeões mundiais até 2022 foram treinados por treinadores locais. A tradição ainda está intacta, mas a Copa do Mundo de 2026 pode ser o cenário onde ela será quebrada.
Quais seleções da Copa do Mundo de 2026 têm treinadores estrangeiros?
Estes incluem Portugal (Roberto Martínez), França (Didier Deschamps, embora seja francês, o seu caso é atípico), Países Baixos (Ronald Koeman) e Marrocos (Walid Regragui), entre outros.
Como a FIFA influenciou essa tendência?
Desde 2021, a FIFA flexibilizou as regras de nacionalidade para selecionadores, permitindo que treinadores com dupla nacionalidade ou raízes em outros países assumam a função. Isso acelerou a contratação de perfis estrangeiros.