Philipp Lahm atribuiu a culpa pela terceira eliminação consecutiva da Alemanha na fase de grupos da Copa do Mundo diretamente à deriva tática e à falta de identidade nacional. O capitão vencedor da Copa do Mundo de 2014 argumentou que a abordagem experimental de Julian Nagelsmann despojou a Mannschaft do estilo de jogo coeso que antes a definia. A derrota da Alemanha por 1 a 0 para o Japão no último jogo da fase de grupos da Copa do Mundo de 2026 selou seu destino, marcando a primeira vez que os tetracampeões não conseguiram passar da fase de grupos em torneios consecutivos.
A crítica de Lahm centra-se na ausência de continuidade. Ele apontou para uma seleção de elenco desarticulada e mudanças táticas frequentes que deixavam os jogadores sem um ponto de referência consistente. O resultado foi uma equipa que parecia irreconhecível em comparação com as equipas disciplinadas e orientadas para a identidade do passado.
Esta mudança não foi apenas táctica – reflectiu questões estruturais mais profundas dentro do pipeline de desenvolvimento juvenil da DFB, onde a dependência de soluções rápidas em vez da construção de identidade a longo prazo deixou a selecção nacional desprovida de uma filosofia clara. A campanha da Alemanha na Copa do Mundo de 2026 terminou com apenas um ponto em três jogos, o pior retorno de todos os tempos na história do torneio. A derrota para o Japão seguiu-se a empates com Portugal e Nigéria, expondo fragilidades defensivas evidentes e um meio-campo que lutava para impor o controlo.
Os números contam uma história dura: a Alemanha sofreu seis golos, o seu maior registo numa fase de grupos desde 1958, enquanto o seu xG (golos esperados) de 1,8 ficou entre os mais baixos de qualquer equipa alemã na história moderna dos Campeonatos do Mundo. Numa entrevista ao *The Guardian*, Lahm redobrou a sua avaliação, afirmando que a equipa tinha perdido o rumo e precisava de se reconectar com os valores que outrora a tornaram uma potência global. “Costumávamos saber exatamente quem éramos”, disse ele.
” As suas palavras sublinham uma desconexão geracional mais ampla, onde o núcleo da equipa – outrora construído em torno de uma compreensão partilhada dos princípios do futebol alemão – funciona agora sem um modelo unificador. O colapso na Copa do Mundo de 2026 não é um incidente isolado, mas o culminar de uma erosão da identidade futebolística da Alemanha que durou uma década. Desde que ergueu o troféu em 2014, a Mannschaft passou por três treinadores – Jogi Löw, o sucessor de Joachim Löw, Hansi Flick, e agora Nagelsmann – cada um trazendo uma filosofia tática diferente.
A falta de memória institucional deixou os intervenientes à deriva, sem uma linguagem ou metodologia partilhada à qual recorrer. Esta amnésia institucional é evidente na incapacidade da equipa de executar princípios básicos sob pressão, uma marca das anteriores equipas alemãs que prosperaram em momentos de alto risco. O fracasso da DFB em enfrentar esta crise decorre de uma fé equivocada em soluções de curto prazo em detrimento do planeamento de longo prazo.
As academias de juniores, que já foram a espinha dorsal do sucesso da Alemanha, produzem agora jogadores tecnicamente talentosos que não têm a disciplina táctica dos seus antecessores. A dependência da federação de treinadores estrangeiros – Nagelsmann é o quarto consecutivo – diluiu ainda mais o espírito nacional, substituindo-o por sistemas importados que não se alinham com os valores fundamentais do futebol alemão. O resultado é uma equipa que mais parece uma colcha de retalhos de talentos individuais do que uma unidade coesa, muito longe da eficiência mecânica dos campeões de 2014.
O que vem a seguir: Com a posição de Nagelsmann sob escrutínio, a DFB enfrenta um acerto de contas. Um regresso aos fundamentos – identidade clara, estabilidade e um canal coerente de desenvolvimento juvenil – é agora inegociável se a Alemanha quiser restaurar o seu pedigree no torneio antes do Euro 2028 em casa. A federação tem de decidir se dobra a aposta no projecto de Nagelsmann ou se adota uma abordagem mais tradicionalista, mas o tempo está a passar.
Os próximos seis meses serão críticos para determinar se a Alemanha poderá redescobrir a sua vantagem competitiva antes de receber a elite do continente. Ler em Guardian Football